As novelas perderam a criatividade ou o público mudou?

Por que as novelas atuais parecem não despertar o mesmo encanto das antigas? Será que realmente falta criatividade ou estamos diante de um público que mudou?
Lucy Ramos e Sheron Menezes serão as protagonistas da nova novela das sete "Por Você". (Imagem: Redes Sociais)

Basta uma chamada de novela, uma música de abertura ou até mesmo um logotipo parecido com o de uma produção antiga para que os comentários apareçam nas redes sociais: “novela boa era novela de antigamente”, “não existe mais criatividade” ou “nunca mais fizeram uma história como essa”.

Recentemente, a identidade visual da nova novela Por Você chamou a atenção de internautas por lembrar Por Amor (1998) um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira. Para alguns, a semelhança foi interpretada como falta de originalidade. Para outros, uma homenagem a um clássico que marcou gerações.

Mas será que as novelas realmente perderam a criatividade? Ou será que a forma como assistimos televisão mudou completamente nos últimos anos?

Quando a novela parava o país

Um dos melhores exemplos de como uma novela já foi capaz de movimentar uma sociedade está em Portugal. Quando Dancin’ Days, de Gilberto Braga, foi exibida pela RTP, o sucesso foi tão grande que restaurantes, cinemas, teatros e casas de espetáculos de Lisboa chegavam a ficar vazios durante o horário da novela. O fenômeno provocou até protestos de empresas e entidades do setor, que temiam impactos econômicos e até desemprego. Anos depois, Água Viva também enfrentou reclamações de exibidores de cinema e teatro portugueses por conta do esvaziamento das casas de espetáculo.

Vocês lembram desses clássicos?

Hoje, imaginar uma novela capaz de alterar dessa forma a rotina de uma cidade parece quase impossível. E talvez seja justamente aí que esteja uma das diferenças mais interessantes entre a televisão de antigamente e a atual: não necessariamente na qualidade das histórias, mas no tamanho do espaço que a novela ocupava na vida das pessoas.

O poder da nostalgia

A verdade é que a nostalgia tem um papel enorme nessa discussão.

Muitas das novelas consideradas inesquecíveis foram assistidas em momentos importantes da vida de milhões de brasileiros. Elas faziam parte da rotina familiar, geravam conversas na escola, no trabalho e até nas filas do supermercado.

Quando alguém lembra de produções como Por Amor, Vale Tudo, Tieta, Mulheres de Areia ou Avenida Brasil, não está recordando apenas da trama. Está lembrando de uma época, de pessoas e de sentimentos que ficaram associados àquela história.

Por isso, muitas vezes a comparação entre novelas antigas e atuais não acontece apenas no campo da qualidade, mas também no da memória afetiva.

Relembre os clássicos da teledramaturgia

O Astro (1977)

O Astro é uma clássica novela da TV Globo, exibida originalmente entre 1977 e 1978. Escrita por Janete Clair, a trama acompanha Herculano Quintanilha, um homem misterioso e carismático que utiliza seus conhecimentos de astrologia e hipnose para conquistar poder, dinheiro e influência. A produção ficou marcada pelo suspense em torno do assassinato de Salomão Hayalla e pelo famoso mistério sobre “Quem matou Salomão?”, que mobilizou o público brasileiro.

Roque Santeiro (1985)

Roque Santeiro foi uma das novelas mais populares da TV Globo, exibida originalmente entre 1985 e 1986. Escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva, a trama acompanha a cidade fictícia de Asa Branca, que vive da exploração da imagem de Roque Santeiro, um suposto herói que teria morrido defendendo a população. A chegada de Roque à cidade, anos depois, ameaça revelar os interesses políticos, econômicos e religiosos construídos em torno de seu mito. A novela se destacou pelo humor, pela crítica social e por personagens que se tornaram marcantes na televisão brasileira.

Vale tudo (1988)

Vale Tudo foi uma das novelas mais marcantes da teledramaturgia brasileira, exibida originalmente pela TV Globo entre 1988 e 1989. Escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, a trama acompanha o conflito entre Raquel e sua filha Maria de Fátima, que possuem visões completamente diferentes sobre honestidade, ambição e sucesso. A novela ficou conhecida por abordar temas como corrupção, desigualdade social e ética, além do icônico mistério em torno de “Quem matou Odete Roitman?”, que parou o Brasil.

Rainha da Sucata (1990)

Rainha da Sucata foi uma novela da TV Globo exibida em 1990, escrita por Silvio de Abreu. A trama acompanha Maria do Carmo, uma empresária que enriqueceu vendendo sucata e tenta conquistar espaço na alta sociedade paulistana. Entre conflitos familiares, diferenças de classe e disputas por poder, a novela satirizou a elite brasileira e abordou temas como ascensão social, preconceito e ambição.

Por Amor (1997)

Por Amor foi uma novela da TV Globo exibida entre 1997 e 1998, escrita por Manoel Carlos. A trama acompanha Helena, uma mãe que toma uma decisão extrema para proteger a filha após o nascimento dos bebês das duas: troca o filho saudável pelo neto que nasceu com problemas de saúde. A novela ficou marcada pelo forte drama familiar, pelos dilemas morais e por personagens que se tornaram inesquecíveis para o público brasileiro.

Caminhos da Índia (2009)

Caminho das Índias foi uma novela da TV Globo exibida em 2009, escrita por Glória Perez. A trama acompanha o romance entre Maya, uma jovem indiana, e Bahuan, enquanto explora aspectos da cultura, das tradições e do sistema de castas da Índia. Paralelamente, a história apresenta personagens brasileiros e aborda temas como preconceito, diferenças culturais e relações familiares. A novela foi um grande sucesso de audiência e conquistou o Emmy Internacional de Melhor Telenovela em 2009.

Pantanal (2022)

Pantanal foi o remake da clássica novela de 1990, exibido pela TV Globo em 2022. Escrita por Bruno Luperi, a produção manteve a essência da história original de Benedito Ruy Barbosa, acompanhando a família Leôncio e os conflitos vividos no Pantanal. A novela se destacou pelas paisagens naturais, pela fotografia e pela força de personagens como Juma Marruá, José Leôncio e Jove, conquistando grande repercussão entre o público e ajudando a reacender o interesse pelos remakes de clássicos da teledramaturgia brasileira.

Quando a novela parava o país

Durante décadas, a novela ocupou um espaço privilegiado na cultura brasileira. Antes da chegada dos streamings e das redes sociais, poucas produções disputavam a atenção do público. O capítulo da noite era um verdadeiro evento nacional. Os personagens viravam assunto no dia seguinte e seus bordões rapidamente se espalhavam pelo país.

Hoje, o cenário é diferente. Enquanto a novela vai ao ar, milhares de pessoas também estão assistindo séries, vídeos curtos, transmissões ao vivo, conteúdos no YouTube ou navegando pelo TikTok e Instagram. A atenção está dividida entre inúmeras plataformas.

Isso não significa que as novelas perderam relevância, mas explica por que é mais difícil criar fenômenos culturais com o mesmo impacto de décadas atrás.

As referências ao passado são realmente falta de criatividade?

Outro ponto que costuma gerar debate é a presença constante de remakes, releituras e referências a produções clássicas.

Nos últimos anos, as emissoras investiram em novas versões de novelas consagradas, retomaram personagens queridos e passaram a incluir homenagens visuais e narrativas em suas produções.

Para parte do público, isso pode parecer uma falta de inovação. Mas existe outra leitura possível. Essas referências funcionam como uma ponte entre gerações. Ao mesmo tempo em que apresentam uma história para novos espectadores, também despertam a memória emocional de quem acompanhou os clássicos em sua exibição original.

A semelhança entre elementos visuais de produções antigas e atuais, por exemplo, muitas vezes é uma escolha consciente para criar identificação imediata com o público.

O público também mudou

Se as novelas mudaram, os espectadores mudaram ainda mais. O ritmo acelerado das redes sociais transformou a forma como consumimos histórias. Hoje, a audiência está acostumada a receber estímulos constantes, episódios sob demanda e conteúdos que podem ser assistidos a qualquer momento.

Já a novela continua sendo construída em torno de uma narrativa longa, com dezenas ou até centenas de capítulos. Isso cria um desafio para os autores: como manter a atenção de um público que vive cercado por infinitas opções de entretenimento?

Vale considerar também que muitas pessoas sentem saudade de personagens marcantes das novelas antigas, como Carminha, de Avenida Brasil (2012), e Nazaré Tedesco, de Senhora do Destino (2004). No entanto, essas personagens foram construídas em um contexto social muito diferente do atual. Muitas das características que as tornaram tão icônicas refletiam comportamentos, valores e até contradições que eram mais aceitos pela sociedade naquele período. Hoje, os tempos mudaram e, em uma realidade marcada pelas redes sociais e pela cultura do cancelamento, até mesmo as personagens mais icônicas precisam se adaptar para dialogar com um público que também mudou.

E uma coisa é certa: os personagens das novelas são, de alguma forma, reflexos das pessoas que convivem conosco ou até de nós mesmos. Independentemente de a história ser bem escrita ou não, é essa identificação que muitas vezes faz com que o público se reconheça, se envolva e crie uma conexão com aquilo que está assistindo.

Então as novelas antigas eram melhores?

Talvez a resposta seja mais complexa do que um simples “sim” ou “não”.

As novelas antigas marcaram época porque fizeram parte de um momento específico da televisão brasileira, quando poucas produções tinham o poder de reunir milhões de pessoas diante da mesma tela.

As novelas atuais enfrentam uma realidade completamente diferente, disputando espaço com plataformas que sequer existiam há alguns anos.

Por isso, quando alguém diz que “novela boa era novela antiga”, pode estar falando menos sobre a qualidade das histórias e mais sobre a saudade da época em que elas ocupavam um lugar central na vida dos brasileiros.

E talvez seja justamente por isso que tantas produções continuam buscando referências nos grandes clássicos: não para substituir a criatividade, mas para resgatar a conexão emocional que transformou as novelas em um dos maiores fenômenos culturais da história do Brasil.

Teaser oficial da nova novela das sete “Por você”

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