Como as músicas das Copas influenciam a memória coletiva?

A memória coletiva é um dos temas que mais aparecem quando o assunto é a trilha sonora da vida. Durante décadas, muitas pessoas associaram grandes torneios, principalmente a Copa do Mundo, a apenas uma música.
Foi o caso de Ricky Martin, com La Copa de la Vida (1998), Shakira com Waka Waka (2010), e Pitbull com We Are One (2014). Músicas que, até hoje, são consideradas as oficiais para entrar no clima de Copa.
O cenário atual, porém, é diferente
Desta vez, a FIFA lançou um álbum com 18 faixas e artistas de diferentes partes do planeta. Em vez de apostar em um único sucesso, a entidade decidiu ampliar as possibilidades.
A proposta busca representar a diversidade cultural dos três países-sede e também refletir o alcance global da competição. Além disso, a mudança acompanha uma transformação que já acontece em toda a indústria do entretenimento.
Atualmente, plataformas digitais influenciam a forma como músicas, séries, filmes e tendências chegam ao público. O objetivo não está apenas em criar um grande hit. Também existe a busca por ocupar vários espaços ao mesmo tempo.
Por isso, o álbum reúne nomes como Anitta (Envolver), LISA (MONEY), Future (Mask Off), Tyla (Water), Burna Boy (Last Last) e Shakira (Waka Waka).
Cada artista conversa com públicos diferentes. Como resultado, o projeto amplia seu alcance em diversos mercados.

A disputa pelo foco
A estratégia acompanha uma tendência observada em diferentes segmentos da cultura pop. Hoje, o público convive com uma quantidade quase infinita de conteúdo disponível.
Pesquisadores costumam chamar esse fenômeno de economia da atenção. Nesse cenário, a atenção das pessoas se torna mais valiosa do que o próprio conteúdo. Por isso, empresas investem em remixes, versões alternativas, edições especiais e lançamentos paralelos.
Um exemplo recente envolve Ariana Grande (thank u, next). Prestes a lançar seu oitavo álbum de estúdio, Petal, a cantora lançou diversas versões do single “Hate That I Made You Love Me” para ampliar sua permanência nas principais paradas musicais.

Na prática, a lógica é simples:
Mais músicas geram mais streams.
Mais artistas alcançam mais públicos.
Mais conteúdos aumentam as chances de viralização.
Memória coletiva e as relações sociais
Em uma festa, basta tocar os primeiros segundos de Toxic, da Britney Spears, para boa parte do público reconhecer a música e performar junto. É justamente aí que nasce a memória coletiva.
Essas referências compartilhadas ajudam a criar conexões entre pessoas de diferentes idades e experiências. Afinal, músicas, filmes e acontecimentos também funcionam como pontos de encontro culturais.
Quando cada pessoa consome conteúdos diferentes o tempo todo, essa memória compartilhada se torna mais rara. Isso não significa que existam menos sucessos, mas talvez que eles acabem sendo restritos a grupos menores e específicos.

Estratégia de visibilidade?
Voltando para a Copa, a estratégia da FIFA possui vantagens evidentes: mais artistas ganham visibilidade e mais públicos se sentem representados.
Por outro lado, especialistas apontam que o excesso de opções pode dificultar a criação de fenômenos culturais duradouros.
O resultado aparece nas próprias conversas sobre futebol. Enquanto muita gente lembra imediatamente de Waka Waka, poucas pessoas conseguem citar a principal música da Copa de 2022.
Agora, resta descobrir se alguma das 18 faixas da Copa de 2026 conseguirá alcançar o mesmo impacto das músicas que marcaram gerações anteriores.
Até lá, o torneio já oferece um retrato interessante de uma era com cada vez mais conteúdo disponível, porém, menos consenso sobre o que todos estão ouvindo ao mesmo tempo.
O álbum completo está disponível em diversas plataformas digitais.
Essa matéria foi escrita sob supervisão do jornalista Matheus Graboski.
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